Confesso: bate, no meu peito, uma profunda tristeza, quando vejo o leito do rio Poti coberto por aguapés, porque sempre vem, à lembrança, a minha infância, época em que mergulhava nas águas desse rio, que banha Teresina.
Nos períodos em que havia a diminuição de chuvas, formavam-se as coroas, uma forma de praia em que, nos fins de semana, as pessoas usavam como área de lazer, um espaço lúdico. Hoje o tapete verde formado por aguapés revela o alto índice de poluição do rio e, consequentemente, o descaso com um problema ambiental tão evidente. Há trechos em que está impraticável a navegação e a pesca.
O progresso não é incompatível com a preservação do meio ambiente. É possível ter um crescimento sem ferir o ecossistema. Mas, para isso, é necessária a criação de uma mentalidade de respeito à natureza.
Teresina teve um crescimento demográfico e as consequências já estão bem evidentes: a diminuição de áreas verdes, a poluição de rios e do ar, o aumento da temperatura e da sensação térmica, o aumento das doenças respiratórias, principalmente entre crianças e idosos, a desobediência aos sinais de trânsitos…
A quantidade de esgoto sem tratamento jogado nos rios prova esse transtorno que prejudica a oxigenação da água. E, com isso, temos essa lamentável paisagem que depõe contra a educação ambiental dos teresinenses.
Claro que há uma parcela enorme de responsabilidade dos órgãos públicos, mas também não podemos deixar de mencionar a omissão da sociedade na busca de soluções para esse problema que afeta a todos, porque não se trata de uma questão estética, referente à paisagem de um ponto turístico da cidade, pois está diretamente ligado à saúde da população que pode estar consumindo peixes contaminados, além de sofrer com os efeitos da poluição.
Quando vejo o rio Poti, lembro também do Tietê, em São Paulo e do rio Maracanã, na capital carioca, hoje ambos parecem um esgoto a céu aberto. Presenciar a morte de um rio é triste. Se não tomarmos as devidas providências, se não houver uma mobilização maior da população sobre a gravidade desse problema, teremos, em breve, um rio transformado em esgoto, poluído, sem vida. E aqui reitero: a solução desse problema depende de ações coletivas. A sociedade organizada precisa se posicionar, uma vez que todos somos afetados.
Em pleno século XXI, com tantos avanços tecnológicos, não se pode esperar pelas chuvas para resolver um problema iminente. “Empurrar com a barriga”, fingir que o problema não existe, fechar os olhos diante do trágico não resolve. A cada ano, o problema se repete, só que, com mais intensidade. Denúncias são feitas, a problemática ganha espaço na mídia, profissionais da área biológica apontam a gravidade do problema, mas as soluções ficam ao “Deus dará…”
Tenho mais de meio século de vida, vi Teresina, coerentemente, com o título de “Cidade Verde”. O arranha-céu da minha infância era aquele prédio abandonado na Praça João Luiz Ferreira, que chamávamos de INPS, onde, pela primeira vez, andei de elevador.
Reafirmo: não sou contra o progresso. Reconheço a necessidade do desenvolvimento econômico. É inquestionável o crescimento da capital do Piauí. Porém, nela, são também visíveis os problemas das grandes metrópoles: violência, aumento da população de rua, mobilidade urbana caótica, imprudência no trânsito…
Teresina sofre os efeitos dessa globalização econômica, marcada pela desigualdade social. Quem entra em um dos seus grandes shoppings depara-se com etiquetas presentes em todos ou outros do território nacional. Porém aqui a disparidade econômica fica bem evidente.
Não podemos perder a nossa identidade nordestina. A nossa cultura é singular. O rio Poti não pode morrer. Não pode ser assassinado em nome do progresso.
*Ataualpa Antonio Pereira Filho
Professor e Escritor




