Quando a Verdade emerge, a mentira naufraga na lama que a sustenta. As pedras que rolam para construir a liberdade são movidas pelo Verdadeiro, porque o Bem sempre prevalecerá sobre o mal, até mesmo por uma questão de justiça.  Os sofismas tendem a relativizar o que é absoluto para atender as suas conveniências. Contudo, a Verdade É.

         Todo o aparato jurídico vigente na sociedade só faz sentido no exercício da justiça fundamentada na Verdade. O Estado de Direito não existe em função das conveniências, mas por uma necessidade humana. A Liberdade não é apenas uma questão de direito, é uma víscera imprescindível para que o corpo social tenha vida.

         O tempo transcorrido tem suas lições registradas na história. Cedo ou tarde, as pernas da mentira tropeçam entre si. E o desmoronamento do falso moralismo geralmente tem consequências árduas: decepções, constrangimentos, perda da credibilidade, da confiança…

          Para todo pecado, existe perdão, desde que haja arrependimento, reconhecimento dos erros e disposição para vencer o orgulho. Para ouvir o “vai e não peques mais” é preciso alinhar a consciência com os princípios éticos e seguir com humildade e decência.

         Já está consolidado o conceito de que “errar é humano”. Mas todos sabem que alguns erros são premeditados, minuciosamente planejados. A mentira também tem as suas instituições. O crime se organiza, cria leis, estabelece códigos, delimita territórios, institucionaliza-se em um poder paralelo e avança principalmente nas regiões em que o Estado é omisso.

         A omissão do Estado deixa a população vulnerável. E a impunidade surge como elemento motivador das práticas ilícitas.É triste ver a estrutura da gestão pública corroída pela corrupção.

         O desvio de verbas destinadas à saúde nesta pandemia é uma covardia, um crime hediondo. Os que assumem a vida na contravenção podem requerer mais respeito do que os lobos que usam pele de cordeiro, que ludibriam a confiança do povo. Cobrem-se com o manto da honestidade, mas a calda fica exposta, porque ostentam um patrimônio incompatível com os ganhos das funções que exercem, além de externar uma insensibilidade diante do sofrimento da população.  Já são mais de 62.045 mortos pela covid-19 em todo o país. Muitos morreram sem receber a assistência médica devida por falta dos recursos que foram desviados. Fatos como esses que estamos testemunhando justificam a vitória do Bem sobre o mal, por isso que a justiça precisa ser feita conforme o estabelecido em lei.

         A esperança que alimento consiste em uma sociedade mais humana pós-pandemia provocada pela Covid-19, porque a morte estendeu o seu manto de cinzas e escreveu nele: “és pó e ao pó voltarás”.

         O nada do depois é pior do que o nada do antes, quando se vive intensamente o amor no durante. Por isso que a dor é profunda quando perdemos um ente querido. Não há como mensurar a intensidade do viver sem ser pelo ato de servir ao próximo. Ninguém vive só para si, por isso que o egocentrismo é um obstáculo em qualquer relacionamento. Fato este que vai ao encontro dos seguintes versos da canção da Legião Urbana:“mentir para si mesmo sempre foi [e será] a pior mentira”. A consciência, que se apresenta como espelho da alma, quando deteriorada pelo vil metal, aflora a insensibilidade. E, com isso, perde-se o senso do bem comum.

          Gosto do soneto “Mal Secreto” de Raimundo Correia, principalmente desta estrofe: “Se se pudesse, o espírito que chora,/Ver através da máscara da face:/ Quanta gente, talvez, que inveja agora/ Nos causa, então piedade nos causasse!”

         Neste período pandêmico, a essência começa a suplantar a aparência. Teremos que enxergar as pessoas por dentro. A morte expõe o nada para que se coloque uma pá de cal sobre a vaidade.

         Leon Tostói, no livro “O que é Arte?”, afirmara: “A beleza é o perfeito (o absoluto) percebido pelos sentidos. A verdade é o perfeito percebido pela razão. O bem é o perfeito atingido pela vontade moral.” Nessa linha de raciocínio, é possível afirmar que o bem não é flagrado pela retina. O belo sem o bem não é perfeito. E o bem sem a verdade não existe. Por isso, não canso de exaltar Aquele que é “o Caminho, a Verdade e a Vida”.

* Ataualpa Antonio Pereira Filho é Professor e Escritor